Cinco sentidos
- 6 de jun. de 2019
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Esses dias eu estava andando na orla com meu namorado e contei pra ele que quando eu era criança, eu tinha o desejo de morar em frente a praia, porque eu achava muito bonito. Mas ao mesmo tempo, eu tinha medo de que aquilo se tornasse normal, banal, entrasse no cotidiano e que por isso, eu não achasse mais bonito, perdesse o significado. Como se a paisagem mudasse depois de tantas vezes olhada. Na verdade, o que mudaria seria a minha relação com aquele lugar, eu seria uma outra pessoa. Não seria mais uma menina querendo ver o mar, achando ele bonito. Seria uma menina que teria o mar todos os dias. A praia continuaria a mesma que é, há, provavelmente, milhares de anos, quem mudaria seria… eu?
É muito louco pensar nisso, como a nossa relação com o real pode alterá-lo. Aliás, o biólogo Richard Dawkins, argumenta que nós não temos acesso de fato à realidade. Tudo que temos de referência do real é interpretado pelos nossos cinco sentidos: tato, visão, audição, olfato e paladar. Tudo que eu acho que é real, tem a ver com a minha maneira de interpretar isso, que sofre influência direta da cultura em que vivo, a língua que eu falo, a minha identidade e muitos outros etc.
“O que é real? Como você define o 'real'? Se você está falando sobre o que você pode sentir, o que você pode cheirar, o que você pode saborear e ver, o real são simplesmente sinais elétricos interpretados pelo seu cérebro.”
O trecho acima é do filme Matrix. É a fala de Morfeu para Neo, numa de suas reflexões sobre o que é real de fato. Outro filme legal nessa temática é Perfect Sense, traduzido para Sentidos do Amor, o qual a história tem como pano fundo uma epidemia global que faz as pessoas perderem os sentidos aos poucos. Sem dar spoiler aqui, mas fica a reflexão de como nossos sentidos, ou ausência deles nos afetam, como a economia global precisa ser repensada pelo simples fato das pessoas não terem, por exemplo, paladar.
Os nossos sentidos são tão nossos, tão parte da nossa realidade própria, moldadores inclusive da nossa realidade que não tem como ir contra eles, por exemplo, mesmo quando você acha que não está enxergando nada, você está enxergando o escuro, como se ele fosse uma massa homogênea diante da sua vista que torna todas as coisas uma só, que não separa os objetos uns dos outros. Dizem que os esquimós percebem muitas tonalidades de branco, que o idioma deles, inclusive, tem muitos nomes diferentes para esses tons. Isso porque eles moram num lugar totalmente branco e o costume naquela realidade fez com eles fossem capazes de perceber outras tonalidades que nós, não nativos de sua cultura, não percebemos. Se a realidade é dada a partir daquilo que somos capazes de perceber, então a realidade é muito parte da nossa identidade. Imagine você, os sinestésicos: pessoas que possuem essa característica genética herdada dos pais que fazem com que elas experimentem mais de uma sensação ao mesmo tempo, recebendo o mesmo estímulo. Por exemplo, você vê uma fórmula de química no quadro e sente um gosto de tomate na boca; ou ouve uma música e sente… um cheiro. É. Bem louco, o que influencia na memória deles, pois eles têm maior capacidade de memorização por conta dessa maneira de associar tudo.
Imagine como a realidade é diferente para as diferentes pessoas que convivemos. Quem nunca teve aquele amigo que não gosta de chocolate? Como assim não gostar de chocolate? É muito precioso estar em contato com aquilo que gostamos de ver, ouvir, comer… muitas memórias afetivas são criadas a partir dos nossos sentidos. Aquele som de chuva na calha que te lembra as tardes que você podia cochilar quando chegava da escola; aquele cheiro de Natal, o calor da cozinha, a sensação de água na boca ao ver sua mãe fazendo a rabanada, o peru no forno, o abraço do seu parente querido quando dá meia-noite; isso para citar as sensações conscientes, imagine saber que o porquê de você não se sentir bem em ambientes amarelo-ovo, tem a ver com a suspensão que você tomou lá no primário e que os minutos passados na sala de direção com paredes amarelo-ovo, influenciaram seus gostos quando adulta. Tudo isso é percebido pelos nossos sentidos, e nos formam como pessoa, constroem nossa identidade, influencia a forma que percebemos o mundo e nos relacionamos com ele.
Por que não se permitir comer aquela comida gostosa que você tem vontade? Se a vida é baseada no que sentimos, se a forma de nos relacionar com o mundo ao nosso redor é através dos nossos sentidos, por que não nos permitir, nem que seja de vez em quando, nos dar ao luxo de fazer algo prazeroso por nós mesmos?, nos permitindo sensações novas e nos descobrindo mais em contato com gostos diferentes, cheiros diferentes, lugares diferentes. Não só isso, mas também entrar em contato com as pessoas ao nosso redor, experienciando momentos e criando novas memórias afetivas, nos conectando através dos nossos sentidos, nos jogando no mundo.

























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